Martinho Lutero

Lutero aos 46 anos (Lucas Cranach o Velho, 1529)

Lutero aos 46 anos

(Quadro de Lucas Cranach o Velho, 1529)

 

Índice

 

 

Vida e obra

 

Filho de um mineiro chamado Hans Luder, mais tarde membro da administração local (Ratsherr), Martinho Lutero nasceu a 10 de Novembro de 1483 em Eisleben (hoje estado alemão de Sachsen-Anhalt). Foi baptizado um dia depois, tomando o nome do santo desse dia. Martinho Lutero cresceu em Mansfeld, uma cidade próxima de Eisleben. Ambas as cidades tinham na altura uns poucos milhares de habitantes.

Martinho Lutero (Martin Luther, inicialmente Martin Luder), (Eisleben, 10 de Novembro de 1483 - Eisleben, 18 de Fevereiro de 1546), teólogo alemão. É o pai espiritual da Reforma Protestante (outro reformador, ver: João Calvino). Como monge agostinho tornou-se teólogo e queria alcançar reformas, vistas como necessárias, sem inicialmente pretender dividir a igreja.

Foi o autor de uma das primeiras traduções da bíblia para o alemão, algo que na altura era considerado pelo Vaticano como uma heresia. Lutero não foi o primeiro tradutor da Bíblia para o alemão. Já havia traduções mais antigas. A tradução de Lutero, contudo, suplantou as anteriores. Além da qualidade da tradução, foi amplamente divulgada em decorrência da sua difusão por meio da imprensa, desenvolvida por Gutemberg em 1453. O latim, a língua do extinto Império Romano, permanecia a lingua franca europeia, imediatamente conotada com o passado romano glorioso, uma era de ciência, de progresso económico e civilizacional, sendo também a língua dos textos sagrados tal como estes foram transmitidos às províncias do império romano, por mais longínquas que fossem, nos menos de 100 anos que separam a oficialização da religião cristã pelo Imperador Romano Teodósio I em 380 d.C. e a deposição do último imperador de Roma pelo Germânico Odoacro em 476 d.C., data avançada por Edward Gibbon e convencionalmente aceite como ano da queda de Roma (Império Ocidental). O fim da perseguição da religião cristã pelo império romano tinha-se dado em 313 d.C. (Ver: Édito de Milão, Concílio de Niceia, Constantino I, A história do declínio e queda do império romano, Santo Jerónimo). No entanto, o domínio do latim era, no século XVI, no fim da Idade Média e princípio da chamada idade moderna, apenas o privilégio de uma percentagem ínfima de população instruída, entre os quais os elementos da própria igreja. A tradução de Lutero para o alemão foi simultaneamente um acto de heresia e um pilar da sistematização do que viria a ser a língua alemã, até aí vista como uma língua inferior, dos ignorantes, plebeus. {É preciso adicionar que Lutero não se opôs ao latim, e ele mesmo publicou uma edição revisada da tradução latina da Bíblia (Vulgata). Lutero escrevia tanto em latim como em alemão. A tradução da Bíblia para o alemão não significou, portanto, rejeição do latim como língua acadêmica

 

Estudos, as 95 teses e a bíblia de Lutero

 

Entre 1501 e 1505 Lutero estudou na Universidade de Erfurt, na Turíngia, tendo obtido o grau de "Magister Artium" da faculdade de filosofia.

No ano de 1505 entrou para a ordem dos Agostinhos, como monge. Até 1511, Lutero viveu e pregou em Erfurt, estudou os Padres da Igreja e aprendeu línguas antigas. Em 1512 obteve o grau de Doutor de Teologia e tornou-se professor na Universidade de Wittenberg, onde ministrou colóquios sobre os livros dos salmos e as cartas de Paulo.

Em 1517 alterou o seu apelido de Luder para Luther (em alusão à palavra grega "leutheros", que significa libertador e livre). Com as suas 95 Teses, que segundo a lenda foram afixadas à porta da igreja de Wittenberg (um acontecimento disputado pelos historiadores que dizem que ele fez publicar alguns exemplares), Martinho Lutero quis protestar contra os defeitos, as irregularidades e a corrupção da igreja católica. A venda de indulgências por parte da igreja era um dos principais motivos de revolta, mas não o único.

porta na catedral com 95 theses

Porta na catedral com 95 teses

 

Lutero tinha podido ler o texto "Instructio Summarium", escrito pelo bispo de Mainz e Brandenburg, que continha instruções para os enviados da igreja que viajavam por todo o território vendendo indulgências. Com as suas 95 teses pretendeu abrir uma discussão pública sobre esta prática. Lutero preparou o "Sermão da indulgência", no qual ele discute esta temática e exprime a sua opinião numa linguagem directa e compreensível para todos.

Com as suas traduções da Bíblia (Novo Testamento em 1521 e Antigo Testamento em 1534), com as quais ele pretendia abrir o conteúdo teológico para a compreensão de todos, incluindo o povo, Lutero incutiu simultaneamente um marco na história da língua alemã. Filipe Melanchthon ajudou-o na tradução dos textos bíblicos do Grego e do Hebraico. Como original, serviu-se de uma Bíblia em Grego de Erasmo de Roterdão.

Lutero servia-se de expressões claras e poderosas nos seus sermões e nas suas escritas. Muitas citações, algumas das quais bem fortes, tornaram-se famosas, como por exemplo: "Se eu der um peido aqui, a gente de Roma o cheira".

 

Início da Reforma Protestante

 

A bula "Exsurge Domine" do Papa Leão X de 15 de Junho de 1520, condenava os 41 textos de Lutero e ameaçava com excomunhão. Lutero irá queimar simbolicamente esta bula em Dezembro de 1520, juntamente com algumas escritas da escolástica e do direito canónico perante a porta da cidade de Wittenberg. Uma vez que ele não respondeu, será excomunhado em 3 de Janeiro de 1521, através da bula "Decet Romanum Pontificem".

A 17 de Abril de 1521 Martinho Lutero comparece perante a Dieta de Worms. Aqui é-lhe dada a última oportunidade de revocação da sua doutrina. Foi-lhe dado um dia para pensar. No dia 18 de Abril, não tendo mudado de opinião, foi repudiado. O Édito de Worms proíbe a leitura ou impressão de suas obras em todo o império, e condena aqueles que o albergarem ou o apoiarem.

Apesar do Édito, é-lhe permitida a viagem para Wittenberg, graças à intervenção do seu príncipe-eleitor (Kurfürst), seu protector, Frederico, o sábio. Pelo caminho, Lutero será raptado, por ordem do príncipe, antes que mais alguém o faça, e levado para o castelo de Wartburg, em Eisenach, para sua protecção. Ali viverá até 1 de Março de 1522, disfarçado sob o nome do fidalgo (Junker) Jörg.

Com a reforma, fundou a igreja luterana. No entanto, Lutero não desejava qualquer separação mas antes a reforma da totalidade de igreja católica. Quando em 1529, na segunda dieta (Reichstag) de Speyer os nobres católicos conseguem acabar com a tolerância para com os evangélicos, até aí em vigor, os nobres evangélicos (6 príncipes -Fürstentümer- e 14 cidades) inserem o protesto na cidade. Foi assim que surgiu a palavra protestantes.

Lutero casou em 1525 com a antiga freira Catarina von Bora, que desde 1523 tinha fugido do seu convento e que vivia em Wittenberg. Catarina foi de uma grande ajuda para Lutero perante as dificuldades e as depressões. Através do alojamento de estudantes que chegavam para escrever os ensinamentos de Lutero, Catarina evitou dificuldades financeiras.

A relação de Lutero para com os judeus teve claramente dois períodos. No início, tentou converter os judeus ao Cristianismo, por exemplo no seu texto "Daß Jesus ein geborener Jude sei" (Jesus nasceu judeu) (1523). No final da sua vida, vendo que esta estratégia não tinha sucesso, Lutero tornou-se muito contrário para com o Judaísmo. Isto tornou-se particularmente evidente no texto "Brief wider die Sabbather an einen guten Freund" (Carta contra os sabáticos escrita a um bom amigo) de 1538 (Lutero tem então 55 anos), e no texto "Von den Juden und ihren Lügen" ("Sobre os judeus e suas mentiras"), escrito em 1543, quando Lutero tinha 60 anos, ou "Vom Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi" ("Sobre o schem Hamphoras e sobre o sexo de Cristo"), de 1544.

 

Processo Romano

 

Em Junho de 1518 foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 Teses. Entende-se como dado o perigo da heresia, a ser examinado pelo processo. Nas aulas que dá na Universidade de Wittenberg, espiões registram os comentários negativos de Lutero sobre a excomunhão. Depois disso, em Augusto de 1518, o processo é alterado para heresia notória. Lutero é convidado para Roma para desmentir a sua doutrina.

Lutero recusa com base em razões de saúde e pretende uma audiência em território Alemão. O seu pedido baseia-se no argumento (Gravamina) da Nação Alemã. O seu pedido foi aceite, ele será convidado para uma audiência com o cardeal Caetano, durante as cortes (Reichstag) imperiais de Augsburg. Entre 12 e 14 de Outubro de 1518, Lutero fala a Caetano. Este pede-lhe que revoque a sua doutrina. Lutero não o fará.

Do lado romano, o caso ficou por aqui. Por causa da morte do Imperador Maximiliano I (Janeiro de 1519), haverá uma pausa de dois anos. O Imperador tinha decidido que o seu sucessor seria Carlos (o futuro Carlos V). Por causa das pertenças de Carlos em Itália, o papa renascentista Papa Leão X receava o cerco do estado da Igreja e procurava evitar que os príncipes-eleitores alemães (Kurfürsten) renunciassem a Carlos. O papel protector de Lutero de Frederico, o sábio levou a que Roma pedisse a Karl von Miltiz que interferisse perante o príncipe por uma solução razoável. Após a escolha de Carlos V como imperador (26 de junho de 1519), o processo de Lutero voltará a ser reatado.

Em junho de 1520 reaparece a ameaça no escrito "Exsurge Domini", em Janeiro de 1521 a bula "Decet Romanum Pontificem". Com ela foi excomungado Lutero. Seguiu-se a ameaça oficial do imperador (Reichsacht).

Notável é no entanto que Lutero terá sido mais uma vez recebido em audiência, que também deixou claras as diferenças entre o papado e o rei/imperador. Carlos foi o último rei (após uma reconciliação) a ser coroado imperador pelo papa. A 17 e 18 de Abril de 1521 Lutero é ouvido na Dieta de Worms (conferência governativa) e após ter negado a revocação da sua doutrina, é publicado o Édito de Worms, banindo Lutero.

 

Exílio no Castelo de Wartburg

Martinho Lutero

Martinho Lutero

 

O sequestro de Lutero durante a sua viagem de regresso foi arranjado. Frederico, o sábio ordenou que Lutero fosse sequestrado no seu retorno da Dieta de Worms por um grupo de homens mascarados a cavalo, que o levaram para o Castelo de Wartburg, onde ele permaneceu por cerca de um ano. Deixou crescer a barba e tomou as vestes de um cavaleiro, assumindo o pseudónimo de Jörg. Durante este período de retiro forçado, Lutero trabalhou na sua célebre tradução da bíblia para o alemão.

 

Image:Casa de Lutero em Wittenberg

Casa de Lutero em Wittenberg (na Turíngia)

 

A Guerra dos Camponeses

 

A Guerra dos camponeses (1524-1525) foi de muitas maneiras uma resposta aos discursos de Lutero e de outros reformadores. Revoltas de camponeses já tinham existido em pequena escala Flandres (1321-1323), França (1358), Inglaterra (1381-1388), durante as guerras hussitas do século XV, e muitas outras até o século XVIII, mas muitos camponeses julgaram que os ataques verbais de Lutero à Igreja e sua hierarquia significavam que os reformadores iriam igualmente apoiar um ataque armado à hierarquia social. Por causa dos fortes laços entre a nobreza hereditária e os líderes da Igreja que Lutero condenava, isto não seria surpreendente.

Já em 1522, enquanto Lutero estava em Wartburg, colaboradores seus perverteram seus ensinamentos e passaram a pregar mensagens revolucionárias por toda a Alemanha. Enfatizava-se a formação de um grupo de “santos”, com a tarefa de lutar contra a autoridade constituída e promover a aniquilação dos “ímpios”. Um desses pregadores foi Tomas Müntzer.

A mensagem escatológica de Müntzer, na verdade, tinha pouco a ver com a proposta dos camponeses, tanto que ele procurou a nobreza da Saxônia para obter apoio. Com a negativa destes e a eclosão dos conflitos camponeses no sudoeste alemão, ele logo viu o instrumento para a concretização de seus planos.

Lutero desde cedo prevenira a nobreza e os próprios camponeses sobre a revolta e particularmente sobre Müntzer, um dos “profetas do assassínio”, colocando-o como um dos mentores do movimento camponês. Lutero escreveu a Terrível História e Juízo de Deus sobre Tomas Müntzer, inaugurando essa linha de pensamento.

Na iminência da revolta (1524), Lutero escreveu a Carta aos Príncipes da Saxônia sobre o Espírito Revoltoso, mostrando a tirania dos nobres que oprimiam o povo e a loucura dos camponeses em reagir através da força e a confiar em Müntzer como pregador. Houve pouca repercussão deste escrito.

Ainda em 1524, Müntzer mudou-se para a cidade imperial de Mühlhausen, oferecendo-se como pregador. Lutero escreveu a Carta Aberta aos Burgomestres, Conselho e toda a Comunidade da Cidade de Mühlhausen com o propósito de alertar sobre as intenções de Müntzer. Também este escrito não teve repercussão, pois o conselho da cidade limitou-se a pedir informações sobre Müntzer na cidade imperial de Weimar.

O principal escrito dos camponeses eram os Doze Artigos, onde as reinvidicações foram expostas. Neles haviam artigos de fundo teológico (direito de ouvir o Evangelho através de pregadores chamados por eles próprios) e artigos que tratavam dos maus tratos (exploração nos impostos, etc.). Os artigos eram fundamentados com passagens bíblicas e pedia-se que se alguém pudesse provar pelas Escrituras que aquelas reinvidicações eram injustas, eles as abandonariam, e entre aqueles que se consideravam dignos de fazer tal coisa estava o nome de Lutero.

De fato Lutero escreveu sobre os Doze artigos em seu livro Exortação à Paz: Resposta aos Doze artigos do Campesinato da Suábia, de 1525. Nele Lutero ataca os príncipes e senhores por cometerem injustiças contra os camponeses e ataca os camponeses pela rebelião e desrespeito à autoridade.

Infelizmente também esse escrito não teve repercussão e durante uma viagem de Lutero pela região da Turíngia ele pôde testemunhar as atrocidades cometidas pelos camponeses, motivando-o a escrever o Adendo: Contra as Hordas Salteadoras e Assassinas dos Camponeses. Tratava-se de um apêndice de Exortação à Paz..., mas cedo tornou-se um livro separado. O Adendo foi publicado quando a revolta camponesa já estava na final e os príncipes cometiam atrocidades contra os camponeses derrotados, de modo que o escrito causou grande revolta na opinião pública contra Lutero. Nele, Lutero encoraja os príncipes a castigar os camponeses, até com a morte.

Tal repercussão negativa obrigou Lutero a pregar um sermão no dia de pentecostes de 1525 que tornou-se o livro Posicionamento do Dr. Martinho Lutero Sobre o Livrinho Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos, onde o reformador contesta os críticos e reafirma sua posição anterior.

Como ainda havia repercussão negativa, Lutero novamente se posiciona sobre a questão no seu Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho Contra os Camponeses, onde lamenta e exorta contra a crueldade que estava sendo praticada pelos príncipes mas reafirma sua posição anterior.

Por fim, a pedido de um amigo, o cavaleiro Assa von Kram, Lutero redigiu Acerca da Questão, Se Também Militares Ocupam uma Função Bem-Aventurada, em 1526, com o propósito de esclarecer questões sobre consciência do cristão em caso de guerra e sua função como militar.

 

[Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre: http://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero]